Lavoura de soja em início de floração ao entardecer, flores lilases entre as folhas trifolioladas

Boro na soja: por que a decisão de adubação no plantio define a floração

por | 30 set, 2026 | Manejo Agrícola, Soja

Lavoura de soja em início de floração ao entardecer, flores lilases entre as folhas trifolioladas

O boro na soja tem mobilidade restrita no floema, o que impede sua redistribuição das folhas mais velhas para os órgãos em formação. Essa característica fisiológica explica por que uma correção do nutriente feita apenas no florescimento chega tarde para evitar perdas na fecundação e na formação de vagens.

Segundo Rosolem e Boaretto (1989), a época de aplicação de boro influencia diretamente a produtividade de grãos, com a maior demanda da soja ocorrendo entre os estádios R1 e R5. Nesse período a planta já concluiu grande parte do crescimento vegetativo e depende do boro absorvido e translocado anteriormente pelo xilema para sustentar a germinação do tubo polínico e a fecundação (Faquin, 2005).

Este artigo descreve por que a imobilidade do boro no floema torna a decisão de adubação no plantio mais determinante do que a correção foliar em cobertura. Aborda também o papel do boro na formação do sistema radicular, a janela de demanda entre R1 e R5, o risco de toxidez por excesso de dose e como a análise de solo e o histórico da área orientam essa decisão.

Por que o boro não se redistribui na planta

Diagrama do transporte de boro na soja pelo xilema e imobilidade no floema
Boro absorvido pelo solo segue via xilema até folhas e flor. No floema, sua redistribuição é restrita, o que explica por que a correção via solo antecede o florescimento.

O boro é absorvido pelas raízes na forma de ácido bórico (H₃BO₃) e transportado até a parte aérea pelo fluxo transpiratório no xilema. Esse transporte funciona enquanto a planta mantém taxa de transpiração adequada, já que depende da corrente de água que sobe das raízes até as folhas.

O floema, ao contrário, tem papel limitado na redistribuição do boro entre órgãos da planta. Segundo Fernandes, Souza e Santos (2018), essa restrição faz com que uma mesma planta apresente folhas com concentrações distintas do nutriente. O excesso acumulado em folhas mais velhas não é redirecionado para tecidos jovens em formação, como flores e vagens.

Essa característica tem consequência prática direta. Quando a deficiência aparece nas folhas novas ou nas estruturas reprodutivas, o boro já absorvido pelas folhas mais velhas não supre a demanda local. A correção depende de um novo aporte, absorvido e transportado a tempo de chegar aos tecidos em crescimento.

Essa lógica de transporte é a base para entender por que o momento da aplicação pesa tanto quanto a dose. Uma aplicação em pré-plantio ou no sulco de semeadura garante disponibilidade contínua durante o ciclo. Uma aplicação foliar tardia depende da absorção direta pelas folhas e de translocação limitada até os órgãos florais em formação.

O boro também sustenta a formação do sistema radicular

boro na soja: Meristema radicular com boro adequado e com deficiência, mostrando o papel do nutriente na pectina da parede celular
Boro adequado (esquerda) forma pontes com a pectina da parede celular, mantendo o meristema radicular ativo. Sob deficiência (direita), a parede fica desorganizada e o crescimento da raiz é paralisado.

O boro tem papel estrutural na parede celular, onde forma pontes de éster borato com a pectina rhamnogalacturonana II, estabilizando a matriz extracelular (Blevins; Lukaszewski, 1998). Essa função explica por que a deficiência do nutriente compromete diretamente o crescimento radicular, e não apenas o desenvolvimento reprodutivo.

Blevins e Lukaszewski (1998) descrevem que a deficiência de boro interrompe a divisão celular no meristema apical da raiz em poucas horas, resultado da perda de integridade da parede celular e de alterações no metabolismo da auxina nesse tecido. O efeito aparece antes mesmo de sintomas visíveis na parte aérea, com raízes mais curtas e pontas de crescimento inchadas.

O excesso de boro também prejudica as raízes, e não apenas por toxidez foliar. Corrêa, Costa, Crusciol e Mauad (2006), em cultivares de arroz de terras altas, observaram redução de 17% a 23% no comprimento radicular e de 17% a 41% na massa seca de raiz na dose de 6 mg dm⁻³ de boro no solo, em comparação com a dose zero. O resultado, obtido em arroz e não em soja, ilustra o mesmo princípio fisiológico central deste artigo, a raiz responde tanto à falta quanto ao excesso do nutriente.

Em soja, um estudo recente conectou o boro diretamente à formação de raízes em condição de acidez do solo. Wang, Cheng e Wei (2024), em solução nutritiva com estresse por alumínio, verificaram que o boro isolado aumentou o comprimento radicular em 16,3% e a massa radicular em 18,5%, em comparação com plantas expostas apenas ao alumínio. A combinação de boro com silício elevou o ganho de comprimento radicular a 68,3%, recuperando a raiz a níveis próximos aos da testemunha sem estresse.

O mecanismo identificado envolve redução de 43,2% no acúmulo de alumínio nas pontas das raízes, além de menor morte celular programada e menor dano oxidativo nos tecidos radiculares. O experimento foi conduzido em solução nutritiva, em condição controlada de estresse por alumínio, e não avalia solo de campo. Ainda assim, ele levanta uma hipótese fisiológica a ser investigada para solos ácidos do Cerrado brasileiro, onde a toxidez de alumínio no subsolo é fator já discutido em Arquitetura Radicular e Eficiência na Absorção de Nutrientes, sem que isso comprove, por ora, que a adubação de boro no plantio recupera o enraizamento em condição de campo.

Como o sistema radicular se forma nas primeiras semanas do ciclo, antes da fase reprodutiva, uma deficiência de boro nesse período compromete a base de absorção de água e nutrientes que sustenta a planta até a fase de maior demanda, descrita a seguir. A decisão de aplicar boro no plantio, portanto, protege dois processos distintos e sequenciais, a formação da raiz primeiro, a fecundação da flor depois.

A demanda de boro na soja entre os estádios R1 e R5

Linha do tempo dos estádios fenológicos com destaque para a janela de maior demanda do boro na soja entre R1 e R5
A decisão de adubação com boro é tomada na semeadura, mas seu efeito é sentido entre os estádios R1 e R5, quando a demanda do nutriente é maior (Rosolem; Boaretto, 1989).

A demanda de boro pela soja não é constante ao longo do ciclo. Rosolem e Boaretto (1989) descrevem que a maior exigência ocorre entre R1 e R5, período que abrange o início do florescimento até o enchimento de grãos.

Nessa fase, o boro participa da germinação do grão de pólen e do crescimento do tubo polínico, processo necessário para a fecundação da flor e a formação da vagem (Faquin, 2005). A deficiência do nutriente nesse momento reduz o número de flores fecundadas, mesmo quando a planta apresenta bom desenvolvimento vegetativo.

Em experimento conduzido na fazenda Três Barras, em Rio Verde, Goiás, na safra 2021/22, Silva e Coaguila Nuñez (2023) testaram cinco doses de boro distribuídas entre a dessecação pré-plantio e a suplementação no estádio R1. O maior número de vagens por planta ocorreu sem boro na dessecação e com 1 L ha⁻¹ em R1, enquanto a maior produtividade de grãos acompanhou a distribuição oposta, mais boro na dessecação e menos em R1 (modelo quadrático, R² = 0,84). O resultado não elege uma via de aplicação como superior, ele mostra que a distribuição da dose entre as duas épocas afeta componentes diferentes da produção.

Rerkasem et al. (1993) observaram, em cultivares de soja cultivadas em solo deficiente em boro no norte da Tailândia, queda de produtividade de grãos entre 30% e 60% na ausência de adubação boratada, com a magnitude variando conforme a cultivar. O dado mostra que a deficiência de boro pode custar produtividade de forma expressiva, ainda que a extensão da perda dependa da cultivar e das condições de cada área.

Aplicação no plantio ou foliar em cobertura: o que pesa na decisão

boro na soja: Fertilizante granulado caindo no sulco de plantio durante a semeadura.
Aplicação de boro no sulco de plantio, junto à semeadura. Imagem ilustrativa, gerada por IA.

A aplicação de boro no sulco de plantio disponibiliza o nutriente próximo ao sistema radicular desde a emergência da lavoura. Essa estratégia aproveita o transporte via xilema durante todo o ciclo, incluindo o período de maior demanda entre R1 e R5, sem depender de uma nova intervenção no florescimento.

A combinação da adubação boratada com a dessecação pré-semeadura também simplifica a operação. Brighenti, Castro e Oliveira (2006) descrevem a aplicação simultânea de herbicidas dessecantes e boro como forma de distribuir o nutriente de maneira uniforme em uma única operação, antes da implantação da lavoura.

A aplicação foliar em cobertura, próxima ao florescimento, depende da absorção direta pelas folhas e da baixa mobilidade do boro no floema para alcançar as estruturas reprodutivas. Quando a lavoura já apresenta sintomas de deficiência nesse estágio, parte da perda em flores fecundadas já ocorreu.

Kappes, Golo e Carvalho (2008), em Santa Carmem, Mato Grosso, avaliaram a aplicação foliar de boro nos estádios V5, V9 e R3. Houve interação significativa entre época e dose apenas para a altura de plantas, sem efeito sobre a qualidade fisiológica das sementes. O resultado não demonstra perda de produtividade por aplicação tardia, apenas que a resposta ao boro foliar varia conforme a característica avaliada.

Somavila et al. (2022), em propriedade localizada em São Miguel do Iguaçu, no Paraná, testaram doses de 0, 1, 2 e 3 kg ha⁻¹ de boro no sulco de semeadura, em solo já classificado como de teor alto do nutriente. A dose de 3 kg ha⁻¹ resultou em 4.684 kg ha⁻¹ de produtividade, contra 4.344 kg ha⁻¹ na testemunha sem boro. O ganho ocorreu mesmo com bom suprimento natural de boro no solo, o que não permite estimar qual seria a resposta em áreas de teor baixo sem um teste específico para essa condição.

Boro na soja: Mapa do Brasil com a localização dos três experimentos de campo citados no artigo, em Rondonópolis-MT, Rio Verde-GO e São Miguel do Iguaçu-PR
Localização dos três experimentos de campo citados neste artigo: Rondonópolis-MT (Rosolem; Zancanaro; Bíscaro, 2008), Rio Verde-GO (Silva; Coaguila Nuñez, 2023) e São Miguel do Iguaçu-PR (Somavila et al., 2022).

Em Latossolo Vermelho-Amarelo de Rondonópolis, Mato Grosso, Rosolem, Zancanaro e Bíscaro (2008) registraram resposta de produtividade a doses de boro de até 1 kg ha⁻¹ ao longo de três safras consecutivas, com teores foliares do nutriente aumentando progressivamente com o tempo de adubação boratada. O resultado sustenta a adubação no plantio como estratégia de acúmulo ao longo dos ciclos, e não apenas como correção pontual.

O risco de toxidez por excesso de boro

O boro apresenta uma margem estreita entre a concentração adequada e a tóxica na planta, menor que a observada para a maioria dos demais nutrientes (Quaggio; Piza Jr., 2001). Furlani et al. (2001), em cultivares de soja, identificaram sintomas de toxidez em concentrações foliares médias de 83 mg kg⁻¹, enquanto a faixa considerada adequada variou entre 21 e 64 mg kg⁻¹.

Boro na soja: Faixas de interpretação da concentração foliar do nutriente, de deficiência a toxidez, em mg por kg
Faixas de concentração foliar de boro em cultivares de soja (Furlani et al., 2001). A faixa entre 64 e 83 mg/kg não teve classificação reportada no estudo original.

Os sintomas de excesso aparecem primeiro nas folhas mais velhas, na forma de clorose entre nervuras seguida de necrose nas bordas. Em solos arenosos, com menor capacidade de adsorção do nutriente, o risco de toxidez aumenta porque uma fração maior do boro aplicado permanece disponível na solução do solo.

Essa margem estreita exige precisão na dose aplicada no sulco de plantio, já que o excesso não se corrige com facilidade ao longo do ciclo. Diferente de nutrientes com maior amplitude entre deficiência e toxidez, um erro de dosagem inicial em boro não se compensa com ajustes foliares posteriores sem risco adicional de fitotoxidez.

Pauletti e Motta (2017) recomendam, para solos do Paraná, 1,5 kg ha⁻¹ de boro na semeadura quando o teor no solo é baixo, 1,0 kg ha⁻¹ quando o teor é médio, e nenhuma aplicação adicional quando o teor já é considerado alto. A dose no plantio, portanto, segue o diagnóstico do solo, não um valor fixo.

Leitura de solo e histórico de área como guia de decisão

A decisão entre aplicar boro no plantio, complementar via foliar ou ajustar a dose depende da análise de solo e da análise foliar em conjunto. A análise de solo indica o teor disponível antes da semeadura, enquanto a foliar confirma se o boro disponível está sendo efetivamente absorvido pela planta.

No experimento de Rio Verde, Goiás, o teor de boro no solo antes da instalação da lavoura era de 0,26 mg dm⁻³, classificado como baixo segundo a faixa de referência de Sousa e Lobato (2004), que considera baixos os teores entre 0 e 0,3 mg dm⁻³. Esse diagnóstico orientou a escolha pela aplicação na dessecação pré-plantio (Silva; Coaguila Nuñez, 2023).

Já no experimento de São Miguel do Iguaçu, Paraná, o teor de boro no solo era de 0,41 mg dm⁻³, considerado alto para a região (Somavila et al., 2022). Isso explica por que apenas a maior dose testada, 3 kg ha⁻¹, diferiu estatisticamente das demais. Em solo com bom suprimento natural, a resposta à adubação boratada é menor.

Solos arenosos e com baixo teor de matéria orgânica retêm menos boro e exigem monitoramento mais frequente, já que a lixiviação ocorre com mais facilidade nesses ambientes. Solos argilosos adsorvem parte do boro aplicado, o que reduz o risco de perdas mas também exige reposição periódica para manter o teor disponível às plantas.

O histórico da área complementa esse diagnóstico. Lavouras com relato de abortamento floral ou má formação de vagens em safras anteriores indicam a necessidade de manter a adubação boratada no plantio a cada safra, e não apenas quando os sintomas voltam a aparecer no campo. Para aprofundar como outros fatores nutricionais afetam essa fase, veja também Absorção de Nutrientes: Fatores Fisiológicos que Limitam e Aumentando a retenção de estruturas reprodutivas.

Conclusão

A baixa mobilidade do boro na soja no floema torna arriscado esperar que sintomas apareçam para agir. O nutriente sustenta primeiro a formação da raiz, nas primeiras semanas do ciclo, e depois a fecundação da flor entre os estádios R1 e R5 (Rosolem; Boaretto, 1989). Em ambos os momentos, a planta depende do boro já absorvido, não do que ainda será aplicado.

Os estudos de campo mostram como a distribuição de doses entre épocas de aplicação afeta componentes diferentes da produção, sem indicar uma via de aplicação superior para todas as áreas (Silva; Coaguila Nuñez, 2023; Somavila et al., 2022). O papel do boro na proteção do enraizamento sob estresse por alumínio, observado em condição controlada, é uma hipótese que ainda precisa de validação em solo de campo (Wang; Cheng; Wei, 2024).

A decisão prática não é escolher entre plantio e cobertura foliar como se houvesse uma via vencedora única. É diagnosticar o teor de boro no solo antes da semeadura, considerar o histórico de deficiência ou toxidez da área, e planejar o suprimento do nutriente com antecedência suficiente para cobrir tanto a formação da raiz quanto o florescimento.

Fontes de liberação gradual e o monitoramento por análise foliar devem ampliar a precisão na dosagem de boro nos próximos anos, reduzindo o risco associado à margem estreita entre deficiência e toxidez (Furlani et al., 2001). Para complementar a leitura sobre manejo da fase reprodutiva, veja também Pegamento de florada, como melhorar e A importância do boro para a soja.

Referências

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Deyvid Bueno

Deyvid Bueno

Agrotécnico

Gerente de Produtos · ICL América do Sul | Gestão de Produtos (Business Behavior Institute) | MBA PUCRS | FAZU | UFMT | IFRO

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