Em resumo, a compactação reduz a densidade radicular da soja nas camadas compactadas e engrossa as raízes. Na Chapada dos Parecis (MT), oito passadas de trator reduziram a produtividade em 30% com fósforo a lanço e em 15% com fósforo no sulco.
O diagnóstico pede umidade padronizada, leitura até 0,40 m e trincheira. No Cerrado, a barreira química do subsolo também limita a raiz e precisa ser separada da compactação.
Beutler e Centurion (2004) identificaram que a produtividade da soja começa a cair quando a resistência à penetração (RP) chega a 0,85 MPa. A medida vale para a camada de 0,05 a 0,15 m. Nesse ponto, a densidade radicular já havia diminuído 18%.
O experimento, em Jaboticabal (SP), aplicou até seis passadas de um trator de 11 Mg sobre um Latossolo Vermelho de textura média. Peixoto et al. (2019) contabilizam mais de 32 milhões de hectares sob plantio direto no Brasil, com soja e milho como principais culturas.
Segundo esses autores, a compactação reduziu a produtividade em áreas de plantio direto contínuo, e o preparo ocasional foi sugerido para mitigá-la.
A compactação também altera o aproveitamento da adubação. Na Chapada dos Parecis (MT), Valadão et al. (2017) aplicaram até oito passadas de trator e compararam fósforo a lanço e no sulco. Com oito passadas, a produtividade caiu 30% na adubação a lanço e 15% na adubação no sulco.
Com quatro e oito passadas, o fósforo na parte aérea da soja adubada a lanço ficou abaixo do limite adequado em todas as doses. Os autores associam o resultado à limitação do crescimento radicular e à deficiência hídrica ao longo do ciclo.
Este artigo apresenta como a compactação altera a raiz da soja e o que mostram os estudos de plantio direto no Cerrado. Ele compara o efeito no milho, descreve o diagnóstico com penetrômetro e avalia a descompactação biológica e a mecânica.
Como a compactação altera fisicamente a raiz da soja
A compactação do solo aumenta a densidade e reduz o espaço poroso. Na soja, ela diminui a densidade de raízes nas camadas mais compactadas e engrossa as raízes que permanecem. Os dados vêm de experimentos de campo com passadas de trator.
Beutler e Centurion (2004) aplicaram zero, uma, duas, quatro e seis passadas de um trator de 11 Mg, com quatro repetições. O tráfego ocorreu com o solo próximo da capacidade de campo. A soja Embrapa 48 foi semeada em dezembro de 2002.
O aumento da compactação elevou a densidade radicular e a massa seca de raízes na camada de 0 a 0,05 m. Nas camadas de 0,05 a 0,10 m e de 0,10 a 0,15 m, os dois parâmetros caíram de forma linear.
A soja concentrou as raízes no topo do perfil e perdeu raízes onde o solo ficou mais resistente.
Valadão et al. (2015) avaliaram soja e milho na Chapada dos Parecis, com zero, duas, quatro e oito passadas de trator em plantio direto. Com oito passadas, o diâmetro das raízes de soja foi 122,59% maior que no solo sem tráfego adicional.
Na abertura da trincheira, os autores observaram engrossamento das raízes secundárias, a ponto de não ser possível identificar a raiz principal.
No estudo de Valadão et al. (2017), em Campo Novo do Parecis (MT), a densidade subiu de 1,17 para 1,32 Mg m⁻³ com oito passadas. A medida vale para a camada de 0 a 0,10 m.
A macroporosidade caiu de 0,17 para 0,08 m³ m⁻³. O valor final fica abaixo de 0,10 m³ m⁻³, limite inferior que os autores adotam para aeração adequada e crescimento radicular.
A macroporosidade ficou abaixo de 0,10 m³ m−3 com RP de apenas 1,57 MPa, abaixo dos 2,0 MPa tidos como críticos
Pandey et al. (2021) mostraram que o solo compactado restringe a difusão do etileno, um hormônio vegetal gasoso. O etileno se acumula nos tecidos da raiz e aciona respostas que limitam o crescimento. Mutantes de Arabidopsis e de arroz insensíveis ao etileno penetraram o solo compactado com mais efetividade que as raízes normais.
Esse mecanismo foi demonstrado em Arabidopsis e arroz, e os estudos brasileiros citados aqui não o testaram em soja. A perda de macroporos observada no campo reduz os poros com ar, que é a condição descrita pelos autores. A relação com a soja é uma hipótese plausível, ainda sem confirmação direta.
Na prática, raízes engrossadas e concentradas nos primeiros centímetros do perfil são um sinal de compactação, e a trincheira é o modo de vê-las. O artigo sobre arquitetura radicular e absorção de nutrientes descreve como cada cultura organiza o sistema radicular.
O caso do Cerrado em plantio direto
Os experimentos mais citados sobre soja e compactação vêm de Jaboticabal (SP), fora do Cerrado. Dois estudos conduzidos em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso avaliaram a soja em plantio direto sobre Latossolo na região do Cerrado. Eles mostram o mesmo padrão, com números próprios.
Selvíria (MS), onde a resistência explica a produtividade
Dalchiavon et al. (2011) avaliaram a soja na safra 2008/2009 em Selvíria (MS), no Cerrado brasileiro. O solo era um Latossolo Vermelho distroférrico sob semeadura direta. Os autores instalaram uma malha geoestatística com 120 pontos em 8,34 ha e coletaram dados de solo e de planta em cada ponto.
O objetivo foi selecionar, entre os atributos do solo pesquisados, o de melhor correlação linear e espacial com a produtividade.
Na camada de 0,10 a 0,20 m, a RP apresentou correlação exponencial inversa com a produtividade de grãos. A produtividade diminuía conforme a resistência aumentava, dentro do mesmo talhão e sem tratamento imposto.
Esse desenho observacional mostra a compactação como ela aparece na lavoura, o que o experimento com passadas de trator não faz. A limitação é que o estudo cobre uma área e uma safra.
Girardello et al. (2014) descrevem que a compactação tem distribuição regionalizada na lavoura. Por isso, a média de um talhão pode ocultar manchas de resistência elevada.
Os limiares mudam conforme o estudo
Os estudos que relacionam RP e produtividade de soja não chegam ao mesmo número. A tabela reúne os valores publicados.
| Estudo | Local e solo | Condição | RP associada à queda de produtividade |
|---|---|---|---|
| Beutler e Centurion (2004) | Jaboticabal (SP), Latossolo Vermelho de textura média | Zero a seis passadas de trator de 11 Mg | 0,85 MPa (camada de 0,05 a 0,15 m) |
| Beutler et al. (2006) | Jaboticabal (SP), Latossolo Vermelho de textura média | Quatro cultivares | 2,24 a 2,97 MPa, conforme a cultivar |
| Beutler et al. (2007a) | Jaboticabal (SP), Latossolo Vermelho eutroférrico | Soja de sequeiro e irrigada | 1,30 MPa (sequeiro) e 1,64 MPa (irrigada) |
| Valadão et al. (2017) | Campo Novo do Parecis (MT), Latossolo Vermelho argiloso | Zero a oito passadas de trator | Queda de 16% com 1,41 MPa (adubação a lanço) |
| Girardello et al. (2014) | Planalto do RS, Latossolo Vermelho argiloso | Plantio direto de longa duração | 3,0 MPa (queda de cerca de 10%) |
A diferença entre 0,85 e 2,97 MPa é de 3,5 vezes. Os estudos diferem em solo, cultivar, regime hídrico, camada avaliada e penetrômetro, e esses fatores podem explicar parte da distância entre os valores.
O valor de RP associado à queda de produtividade da soja variou 3,5 vezes entre os estudos
Beutler et al. (2007a) mostraram que a soja irrigada tolerou mais compactação que a de sequeiro. Com RP de 2,84 MPa, as perdas foram de 19,15% no sequeiro e de 11,71% na irrigada. Aplicados a uma lavoura de 60 sc ha⁻¹, esses percentuais equivalem a 11,5 e 7,0 sacas por hectare.
Em regime de sequeiro, a compactação pesa mais. Como a densidade radicular cai nas camadas compactadas, a soja explora menos solo quando a água falta. Isso sugere priorizar o diagnóstico nas áreas de sequeiro.
O artigo sobre bioestimulantes para déficit hídrico em soja trata das estratégias para a safra 2025/26.
Compactação ou barreira química no subsolo
No Cerrado, uma raiz curta nem sempre indica compactação. Sousa et al. (2005), da Embrapa Cerrados, descrevem que a deficiência de cálcio, associada ou não à toxidez de alumínio, ocorre abaixo da camada arável. Segundo eles, a calagem não corrige essa condição na subsuperfície.
Os autores consideram a saturação por alumínio acima de 10% prejudicial ao crescimento radicular. Abaixo de 20 cm, cerca de 70% da área agricultável do Cerrado excede esse valor. Em cerca de 86% da área, o teor de cálcio na subsuperfície é inferior a 0,4 cmolc dm⁻³.
Sousa et al. (2005) indicam o gesso agrícola para levar cálcio e reduzir o alumínio em camadas mais profundas. Isso favorece o crescimento radicular em profundidade.
Na trincheira, raiz grossa e deformada em camada densa aponta compactação. A análise de solo abaixo de 20 cm indica a barreira química. Os dois problemas podem coexistir na mesma área, e corrigir só um deixa o outro limitando a raiz. Este artigo não avalia a resposta da soja ao gesso.
Por que a adubação perde rendimento em solo compactado
O fósforo a lanço perde aproveitamento em solo compactado, e o fósforo no sulco perde menos. O teste mais direto dessa relação em soja no Cerrado vem de Valadão et al. (2017), na Chapada dos Parecis (MT).
O desenho do experimento
O experimento usou um Latossolo Vermelho Distrófico típico de textura argilosa, cultivado com soja e milho em semeadura direta havia três anos. A compactação adicional foi aplicada após as primeiras chuvas, com a camada de 0 a 0,20 m a 0,30 m³ m⁻³ de água.
Os tratamentos combinaram quatro níveis de compactação, com zero, duas, quatro e oito passadas de trator. Cruzaram duas formas de aplicação de fósforo, a lanço e no sulco, e quatro doses de P₂O₅, de 0, 50, 100 e 150 kg ha⁻¹.
A fonte foi o fosfato monoamônico, e a cultivar foi a 98Y12. A tabela mostra como o solo e a produtividade responderam. Os valores de produtividade são médias por forma de adubação, com as doses agrupadas.
| Passadas de trator | RP, 0 a 0,10 m (MPa) | Macroporosidade (m³ m⁻³) | Produtividade a lanço (kg ha⁻¹) | Produtividade no sulco (kg ha⁻¹) |
|---|---|---|---|---|
| 0 | 1,27 | 0,17 | 3.980 | 4.114 |
| 2 | 1,41 | 0,13 | 3.333 | 3.988 |
| 4 | 1,54 | 0,11 | 3.193 | 3.464 |
| 8 | 1,57 | 0,08 | 2.770 | 3.480 |
A RP máxima foi de 1,57 MPa, abaixo dos 2,0 MPa que a literatura costuma tratar como crítico. A produtividade caiu nesse nível. Os autores atribuem o efeito à macroporosidade de 0,08 m³ m⁻³, menor que o limite de 0,10 m³ m⁻³ para aeração e crescimento radicular.
O experimento teve três repetições, parcelas de 3,4 × 3,15 m e uma safra, com coeficiente de variação de 14% na produtividade. Os autores atribuem o efeito principalmente à deficiência hídrica durante o ciclo, e a extrapolação para anos sem estiagem exige cautela.
Com oito passadas de trator, a produtividade da soja caiu 30% com fósforo a lanço e 15% no sulco
O que aconteceu com o fósforo
Na adubação a lanço, as doses de P₂O₅ não alteraram o fósforo da parte aérea da soja nos tratamentos de quatro e oito passadas. Os teores ficaram em 1,99 e 1,78 g kg⁻¹, abaixo da faixa adequada de 2,6 a 5,0 g kg⁻¹ citada pelos autores.
No sulco, as doses de 0 a 50 kg ha⁻¹ também deixaram o fósforo da soja abaixo do limite nesses tratamentos. Doses maiores aumentaram o teor de forma linear e atenuaram o efeito. No teor de fósforo da planta, a dose adicional compensou a compactação no sulco e não compensou a lanço.
Valadão et al. (2017) atribuem esse resultado, como explicação provável, ao maior desenvolvimento radicular em profundidade que o sulco proporcionou nas áreas compactadas.
No solo, a compactação reduziu o fósforo em 32% na camada de 0 a 0,05 m, na adubação a lanço com oito passadas. No sulco, com oito passadas, a redução foi de 38% na camada de 0,05 a 0,10 m e de 44% de 0,10 a 0,15 m.
Os autores atribuem parte da queda ao efeito de diluição, porque o solo compactado tem mais massa por volume.
Os demais nutrientes e o balanço em sacas
A compactação não reduziu todos os nutrientes. O teor de nitrogênio na parte aérea caiu de 47,2 para 35,2 g kg⁻¹ com quatro passadas. Com oito, caiu para 30,1, abaixo da faixa adequada.
Os autores levantam a hipótese de menor nodulação, apoiada em estudo anterior no mesmo tipo de solo. O teor de potássio subiu 17% a partir de quatro passadas, e o de enxofre subiu 51% com oito. Cálcio e magnésio caíram 18% e 14% com oito passadas e permaneceram na faixa adequada.
Com oito passadas, nitrogênio, cálcio e magnésio caíram na parte aérea da soja, e potássio e enxofre subiram
Na produtividade, oito passadas reduziram 30% a soja adubada a lanço e 15% a soja adubada no sulco. Em sacas de 60 kg, a perda foi de 20,2 sacas por hectare no lanço e de 10,6 no sulco.
A posição do adubo valeu 11,8 sacas por hectare no tratamento mais compactado. Multiplique esses números pelo preço da saca na sua região para obter o valor em reais. Os dados vêm de parcelas experimentais de poucos metros quadrados, e a validação em escala de lavoura segue necessária.
O que muda na prática
Os autores concluem que, em sistemas compactados, a prioridade é qualquer prática que aumente o aproveitamento da adubação. Eles citam a aplicação localizada no sulco como forma de atenuar o efeito da compactação.
A resposta à dose também depende da posição. No conjunto dos níveis de compactação, a produtividade aumentou de forma linear com o P₂O₅ nas duas formas de aplicação. A inclinação foi de 9,6 kg de grãos por kg de P₂O₅ no sulco e de 6,1 kg a lanço. Na dose de 150 kg ha⁻¹, o sulco produziu mais que o lanço.
Para a lavoura, o resultado sugere uma ordem de trabalho. Primeiro, confirmar a compactação com o diagnóstico descrito adiante. Depois, posicionar o fósforo no sulco nas áreas de RP elevada. Por fim, acompanhar o teor de fósforo na planta, cuja faixa adequada nesse estudo foi de 2,6 a 5,0 g kg⁻¹.
O artigo sobre fatores fisiológicos que limitam a absorção de nutrientes complementa essa discussão pelo lado da planta.
A comparação com o milho
O milho perdeu 38% da produtividade em solo compactado sem que o enraizamento fosse impedido. Esse resultado ajuda a entender a soja. Freddi et al. (2007) induziram seis níveis de compactação com tráfego controlado de tratores em um Latossolo Vermelho de textura média.
A RP variou de 1,03 a 5,69 MPa entre os tratamentos. O diâmetro e a massa seca das raízes aumentaram de forma linear com a resistência. As raízes cresceram mesmo com 5,69 MPa e densidade do solo de 1,78 Mg m⁻³.
O tráfego concentrou a compactação na camada superficial, onde a densidade e a superfície radicular foram maiores. No solo sem tráfego adicional, a RP era de 1,03 MPa na superfície e de 2,93 MPa na subsuperfície.
No tratamento mais compactado, a RP chegou a 5,69 MPa na superfície e a 3,06 MPa na camada de 0,10 a 0,20 m. O solo sem tráfego adicional já tinha RP elevada em profundidade.
O valor crítico de RP foi de 1,65 MPa. A partir dele, a produtividade caiu de 6.718 para 4.137 kg ha⁻¹, uma redução de 38%. A perda de 2.581 kg ha⁻¹ equivale a 43 sacas de 60 kg por hectare, e a produtividade passou de 112 para 69 sacas.
Os resultados da soja seguem a mesma lógica. Valadão et al. (2015) registraram raízes de soja 122,59% mais grossas com oito passadas. Beutler e Centurion (2004) registraram queda da densidade radicular nas camadas compactadas.
Nas duas culturas, a raiz continua presente, muda de forma e de posição, e a produtividade cai sem bloqueio total.
Os limiares publicados não permitem afirmar que uma cultura seja mais sensível que a outra. O valor crítico do milho (1,65 MPa) fica dentro da faixa observada para a soja (0,85 a 2,97 MPa). A variação entre estudos de soja é maior que a diferença entre as culturas.
Cada estudo usou solo, cultivar, umidade e método próprios.
A consequência prática vale para a sucessão. A camada compactada é a mesma para a soja e para o milho safrinha, e o diagnóstico feito antes da soja orienta as duas culturas.
Na Chapada dos Parecis, a área de Valadão et al. (2017) vinha de três anos de sucessão entre soja e milho em semeadura direta. O critério de decisão deve vir de dados locais e não de um valor fixo.
O artigo sobre arquitetura radicular descreve as diferenças morfológicas entre o sistema radicular do milho e o da soja.
Diagnóstico com penetrômetro
A RP mede a força por unidade de área que um cone exige para atravessar o solo, e se expressa em megapascal (MPa). É o indicador físico mais usado para diagnosticar compactação. O número só vale se a leitura seguir um protocolo, e os estudos revisados sustentam cinco passos.
- Padronize a umidade. Peixoto et al. (2019) mediram a RP em sete potenciais matriciais e demonstraram que a umidade na leitura altera o diagnóstico. Os autores propuseram uma faixa de conteúdo de água ideal para o diagnóstico e o monitoramento.
- Leia o perfil até 0,40 m. Beutler e Centurion (2004) encontraram o efeito entre 0,05 e 0,15 m. Dalchiavon et al. (2011) encontraram a melhor correlação com a produtividade entre 0,10 e 0,20 m. Silva et al. (2025) viram o efeito do manejo entre 0,20 e 0,40 m.
- Defina a densidade de pontos. Dalchiavon et al. (2011) usaram cerca de 14 pontos por hectare e obtiveram alcances de dependência espacial entre 38,1 e 114,7 m. Girardello et al. (2014) usaram malha de 50 × 50 m, cerca de 4 pontos por hectare. Pontos mais distantes que o alcance deixam de ser espacialmente correlacionados.
- Abra uma trincheira. Valadão et al. (2015) identificaram a deformação das raízes de soja ao abrir o perfil. A trincheira mostra a forma e a posição das raízes, que o penetrômetro não mostra.
- Cruze a RP com outros indicadores. Silva et al. (2025) mediram de 4,5 a 5,5 MPa na superfície sob plantas de cobertura, sem efeito negativo sobre raízes ou produtividade. Os autores sugerem que a infiltração de água pode explicar melhor o estado de compactação.
O tipo de penetrômetro também importa. Beutler, Centurion e Silva (2007b) compararam três aparelhos em solo compactado. O penetrômetro de impacto registrou valores superiores aos do anel dinamométrico e do eletrônico. Os autores observaram que os três caracterizaram a compactação.
Silva et al. (2025) usaram penetrômetro de impacto em solo friável, e Girardello et al. (2014) usaram penetrômetro digital. Compare leituras apenas entre aparelhos do mesmo tipo.
O diagnóstico evita a escarificação desnecessária. Girardello et al. (2014) não obtiveram ganho de produtividade com a escarificação mecânica em solo de RP baixa a moderada e sob chuva elevada.
Para esse Latossolo, o valor crítico foi de 3,0 MPa, com queda de cerca de 10% na produtividade. Com 5,0 MPa, a queda chegou a cerca de 38%. Em uma lavoura de 60 sc ha⁻¹, 10% equivalem a 6 sacas e 38% a 22,8 sacas por hectare.
A estrutura do solo também responde à química. O artigo sobre a relação Ca/Mg e a compactação dos solos trata dos atributos químicos que se somam à leitura física descrita aqui.
Regra de decisão para escarificar
Os estudos citados permitem montar uma sequência de decisão, e não um número fixo de RP. Peixoto et al. (2019) propuseram um critério baseado em RP para decidir sobre o preparo ocasional. Cada passo abaixo se apoia em um resultado publicado.
- Meça a RP com umidade padronizada, em malha de pontos e até 0,40 m, como fizeram Peixoto et al. (2019) e Girardello et al. (2014).
- Compare as manchas de RP elevada com o mapa de produtividade ou com uma área vizinha sem problema. Dalchiavon et al. (2011) encontraram correlação entre RP e produtividade dentro do mesmo talhão.
- Confirme na trincheira se as raízes estão deformadas ou concentradas no topo do perfil (Valadão et al., 2015).
- Escarifique apenas as manchas em que a RP e a trincheira indicam restrição. Em solo de RP baixa a moderada, Girardello et al. (2014) não obtiveram ganho de produtividade.
- Mantenha cobertura de raiz profunda depois da operação. Nicoloso et al. (2008) observaram que a escarificação mecânica perdeu efeito em nove meses.
O valor crítico de RP depende do solo. Para o Latossolo argiloso de Girardello et al. (2014), foi de 3,0 MPa, e para o de Beutler e Centurion (2004), de 0,85 MPa. Sem valor local, a comparação com a área de referência substitui o limite fixo.
Descompactação biológica e mecânica
A descompactação mecânica age rápido e perde efeito rápido, e a biológica age devagar e se mantém. Os dados de campo com soja sustentam essa diferença.
O que a escarificação mecânica entrega
Nicoloso et al. (2008) avaliaram a escarificação mecânica em um Latossolo de textura muito argilosa sob semeadura direta. O efeito foi temporário, sem melhoria das condições físicas nove meses após a operação, em época de chuva elevada. A escarificação funcionou melhor quando associada à biológica, que preveniu a reconsolidação do solo.
Silva et al. (2025) chegaram a um resultado semelhante em Botucatu (SP), em solo argiloso com 645 a 664 g kg⁻¹ de argila. A escarificação reduziu a RP em 37% e a densidade do solo em 6% na camada de 0 a 0,10 m. O efeito não passou dessa profundidade.
Após 14 anos, a soja sob escarificação ocasional teve menor desenvolvimento radicular que a soja sob plantas de cobertura.
A escarificação funciona quando há compactação diagnosticada. Peixoto et al. (2019) relatam que o preparo ocasional, com subsolagem ou escarificação, aumentou a produtividade nas três safras seguintes. A área estava havia 10 anos sob plantio direto contínuo.
Girardello et al. (2014) não registraram ganho em solo de RP baixa a moderada. A diferença entre os dois resultados está no diagnóstico.
O que a descompactação biológica entrega
Silva et al. (2025) compararam a escarificação ocasional com o milheto (Pennisetum glaucum) e a crotalária (Crotalaria juncea) na primavera, antes da soja. O experimento começou em 2003.
Em relação à escarificação, as plantas de cobertura reduziram a RP em até 27% na camada de 0,20 a 0,40 m. A massa seca de raízes da soja foi 71% maior após o milheto e 55% maior após a crotalária.
A produtividade foi 18% maior após a crotalária, o que equivale a 10,8 sacas em uma base de 60 sc ha⁻¹. Os autores avaliaram uma única safra, em solo argiloso de Botucatu (SP).
Chioderoli et al. (2012) avaliaram a soja sobre a palhada de milho consorciado com braquiária, em experimento da UNESP em Ilha Solteira. O consórcio e a sequência de culturas aumentaram a macroporosidade e a porosidade total do solo.
A Brachiaria brizantha semeada na adubação de cobertura do milho e a Brachiaria decumbens na linha do milho promoveram as maiores produtividades de soja. No caso da B. brizantha, os autores atribuem o resultado à maior disponibilidade de nutrientes e à maior porosidade.
Como combinar os dois
Os estudos citados sustentam uma sequência. Primeiro vem o diagnóstico, que localiza a camada e as manchas. Depois vem a intervenção mecânica apenas onde a RP limita a produtividade. Em seguida entra a planta de cobertura de raiz profunda, que mantém a estrutura.
No trabalho de Nicoloso et al. (2008), o consórcio de nabo-forrageiro e aveia-preta aumentou a persistência da melhoria física induzida pela escarificação mecânica.
Girardello et al. (2014) testaram um escarificador sítio-específico, com profundidade de atuação variada conforme a RP, e um escarificador convencional de profundidade fixa. Nenhum deles aumentou a produtividade em relação ao tratamento sem escarificação nas condições do estudo.
A umidade no momento do tráfego também importa. No experimento de Beutler et al. (2006), um dos tratamentos foi compactado com o solo mais seco, para obter menor nível de compactação.
O artigo sobre o impacto das plantas de cobertura na biodiversidade do solo trata do efeito das coberturas sobre a vida do solo.
Evitar que a compactação volte
A prevenção atua sobre o tráfego. Arvidsson e Keller (2007) estudaram como a carga por roda e a pressão de inflação dos pneus alteram o estresse no solo. O trabalho foi feito em clima temperado, e não no Cerrado.
Nesse estudo, a carga por roda e a pressão de inflação aparecem como determinantes do estresse no perfil. Reduzir a pressão de inflação, para o mesmo pneu e a mesma carga, diminui a pressão média e o pico de estresse.
A umidade do solo também pesa. Beutler et al. (2006) compactaram um dos tratamentos com o solo mais seco e obtiveram menor nível de compactação. Em Valadão et al. (2017), a compactação foi aplicada com 0,30 m³ m⁻³ de água na camada de 0 a 0,20 m.
O número de passadas também conta. Em Beutler e Centurion (2004), a densidade radicular caiu de forma linear nas camadas de 0,05 a 0,15 m conforme as passadas aumentaram a compactação.
As medidas são evitar tráfego com solo úmido, reduzir a pressão de inflação e a carga por roda e limitar as passadas. Os estudos citados não testaram tráfego controlado, e o artigo não avalia essa prática.
Conclusão
A raiz da soja responde à compactação mudando de distribuição, de espessura e de sinalização hormonal. Beutler e Centurion (2004) associaram a queda de produtividade a 0,85 MPa e a 18% menos densidade radicular.
Valadão et al. (2017) mediram perdas de 15% a 30% com oito passadas de trator. O fósforo a lanço perdeu aproveitamento, com teores na planta abaixo do limite adequado em todas as doses.
O limiar vai de 0,85 a 2,97 MPa na soja e é de 1,65 MPa no milho (Freddi et al., 2007). Por isso o diagnóstico precisa de umidade padronizada, leitura até 0,40 m, malha de pontos e uma trincheira. A descompactação mecânica tem efeito temporário, e a biológica depende de anos de cobertura com raiz profunda.
Pandey et al. (2021) propõem que a via do etileno pode orientar o melhoramento de culturas tolerantes à compactação. Enquanto essa seleção não chega ao campo, o manejo do tráfego e da posição do adubo está ao alcance do produtor.
Leia também o artigo sobre arquitetura radicular e absorção de nutrientes e conte nos comentários como você mede a compactação nas suas áreas.
Referências
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